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terça-feira, 10 de julho de 2012

A Eira


A Eira,
lugar mágico da minha infância ....
Moeiras a dançar
ao sol quente e castigador,
do mês de Julho!

Sacrifício do trigo,
na pedra escura do eirado !
Grãos de ouro se amontoando,
alegria no coração dos homens !

Corpos suados,
em ritmo acertado ....
Rostos marcados pelo esforço da malha,
Entorpecidos pela sede e o calor do astro Rei
Que, do alto, os dilacera.

Apressa-se a criança, nessa luz do dia;
A cântara na mão, fonte da vida,
Bate forte o coração,
na ânsia de chegar à Eira
O Sol vai alto
e a festa é lá !

Lurdes Alves

quarta-feira, 23 de março de 2011

História e Estórias da nossa Maljoga

As Quelhas

Ao percorrer a rua principal, deparamos com os vestígios de 3 quelhas, cuja existência remonta a mais de 200 anos, os mesmos que, supomos ser a do povoamento da aldeia. Estas pequenas aberturas muito estreitas, entre as casas, davam acesso a quintais ou terras circundantes e eram passagem só para pessoas ou animais de pequeno porte.

Talvez por razões, essencialmente económicas ou de estratégia(quem sabe, se para defesa dos lobos que abundavam na serra), as casas foram construídas ligadas umas às outras, com paredes comuns e em forma de comboio.

Eram muito pobres, feitas de barro, pedra e madeira utilizada nos tectos, no chão e como divisão dos compartimentos da casa. Não tinham casa de banho. Apenas um pequeno “vaso” de loiça (antes do aparecimento do plástico), vulgarmente chamado de “penico”, enfeitava a parte de baixo das camas.

Por essa razão muitas vezes na nossa infância víamos, pela manhã, bem cedo, alguem “de calças na mão”, aflito, a correr pela quelha abaixo, para ir ao quintal aliviar-se.

Quando se vivia longe da quelha, ou a casa não tinha acesso às traseiras, o despejo do vaso era feito diretamente da janela da casa para a rua, chão de terra batida e coberta com matos, que forneciam, indubitavelmente, uma boa produção natural de fertilizante para as terras.

Quem não se portasse bem e provocasse o vizinho corria o risco de levar com um “penico” cheio de dejetos e mijo, em cima !

As quelhas também serviram de escape à Autoridade, que, montada em cavalos, invadia o povoado à procura daqueles que fugiam ao pagamento dos impostos. Não seria, com certeza, uma missão muito prazerosa para os que representavam a lei, encontrar os moradores assim tão facilmente, pois estes ausentavam-se de manhã bem cedo para os campos, quase sempre afastados das aldeias, e só voltavam à noite. Por isso teriam que ser “caçados “ nas horas certas. Esta escapatória era óptima porque chegando à quelha os cavalos já não entravam.

Havia sempre alguém a morar numa quelha. Uma tia, por exemplo! Então para mencionar essa tia , falava-se na “tia da quelha”.

As quelhas ainda hoje permanecem, praticamente, inalteradas pelo tempo, cheias de memórias de acontecimentos já longínquos, de gentes que lutaram por uma sobrevivência difícil e cujos espíritos (eu creio) ainda ali fazem caminho. 

Maria de Lurdes Alves
10 de Março de 2011